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27/03/2009 - 00:06:46h - CristianismoHoje

Um messias alienígena?

Nova versão de ‘O dia em que a Terra parou’ traz alienígenas mais parecidos com deuses

Equipe Jota7

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Um messias alienígena?

Cartaz do filme "O Dia em que a Terra parou": os seres humanos precisam sair do desespero para a razão.

O Messias alienígena é um elemento básico da ficção científica, e poucos tem sido tão messiânicos como Klaatu, que veio à Terra para deixar uma mensagem de paz e alertar sobre uma possível destruição apocalíptica na versão original de O Dia em que a Terra Parou (1951). Os indícios estão todos lá: ele anda oculto entre pessoas comuns com o nome de Carpinteiro, ele é ignorado pelos governantes desse mundo e no final é morto pelos seus soldados, ele é trazido de volta à vida de dentro da sua nave em forma de túmulo com a ajuda de um guardião robô, e depois aparece para emitir uma última mensagem para o mundo, antes de ascender aos céus. Mesmo assim, o diretor Robert Wise alega que não estava consciente dos paralelos cristológicos até outras pessoas apontarem isso para ele.

Esse desconhecimento não existe nessa nova versão, dirigida por Scott Derrickson, um dos poucos autores-diretores que se declaram cristãos trabalhando em Hollywood. Mas o novo filme surge numa época em que idéias sobre deuses, alienígenas, e seres humanos têm se tornado um pouco mais complicadas. O próprio Derrickson não é nenhum novato em assuntos complexos, O Exorcismo de Emily Rose (2005), foi cuidadosamente planejado para estimular a discussão sobre a natureza da fé e da dúvida, sem pender nem para um lado nem para o outro. Mas seu novo filme, que teve o estúdio preparado um tempo antes de vir à tona, está imprensado entre as exigências do estúdio maior e os desejos de seus produtores, também está entre a necessidade de atualizações e a pressão, de fãs e de outros, de reciclar os elementos já conhecidos do filme original, mesmo que eles pareçam não se encaixar na lógica interna do novo filme.

Os elementos básicos retomam uma curta história, de 1940, chamada Farewell to the Master. Nessa história, um alienígena chamado Klaatu – semelhante a um deus -, sai de uma nave que havia surgido do nada no meio de Washington. Esse estranho visitante é prontamente baleado e morto por um homem que achou que o alienígena era um demônio. A população da Terra se aterroriza supondo que o povo de Klaatu poderia revidar, caso soubessem do ocorrido, então criam um memorial ao alienígena, mostrando respeito por ele. E desde que Klaatu ficou acompanhado de um robô gigante, que agora permanecia inerte do lado de fora da nave, eles construíram um prédio em volta do robô e da nave também. Alguns anos depois, porém, uma jornalista descobre que o robô na verdade trabalhava enquanto ninguém estava vendo – conduzindo experiências na tentativa de trazer Klaatu de volta à vida. O filme termina com uma mudança repentina, quando podemos descobrir que o robô não é um servente de Klaatu, mas o seu mestre.

O filme de 1951 mantém alguns desses detalhes, ainda que a história seja totalmente diferente. Naquela época, o sagrado Klaatu, interpretado por Michael Rennie, é morto não por um fanático desequilibrado, mas por um soldado que puxa seu gatilho ao ver Klaatu portando um estranho objeto. O objeto não era uma arma, mas um presente que poderia ajudar o presidente dos Estados Unidos a estudar a vida em outros planetas. O robô, aqui chamado de Gort, faz parte de uma polícia interestrelar, que foi posta em prática para evitar que qualquer planeta se torne uma ameaça para os outros. Depois o filme ressalta seu tema básico: que a razão e a boa vontade deveriam substituir o medo, o ciúme, e outras perigosas emoções; e que a humanidade pode evoluir se ela seguir o exemplo deixado por Klaatu e por seu povo.

Que os seres humanos precisam sair do desespero para a razão é um assunto que o filme ressalta repetidamente. Aonde Klaatu vai se depara com paranóia e histeria. Enquanto alguns repórteres incitam as pessoas a ficarem calmas, outros atiçavam o medo da população e espalhavam rumores exagerados sobre Klaatu. Enquanto isso, cidadãos comuns entram em conflitos partidários e nacionalistas. Em um momento, uma mulher até especula se o alienígena poderia ter vindo da União Soviética. Em oposição a tudo isso, Klaatu procura “o maior filosofo, o maior pensador” do mundo, até encontrar um cientista tipo Einstein, chamado Jacob Barnhardt (Sam Jaffe), que concorda em reunir outros cientistas ao redor do mundo. Para chamar a atenção do resto do planeta, Klaatu usa sua tecnologia para bloquear quase toda a atividade elétrica da Terra por meia hora. Uma ação que maravilha o sempre curioso Barnhardt, mas apavora a sua secretária. Por fim, Klaatu declara que Gort e seus amigos robôs podem e destruirão qualquer planeta que introduza violência no espaço – e esse poder que os robôs exercem independentemente, não pode ser anulado. Mesmo assim, ainda que essa advertência seja terrível, ela está baseada na crença de que a razão poderá salvar o dia. Um mundo governado pela lógica – mesmo fria, mecânica, ou devastadora – é, no final das contas, melhor que qualquer outro.

Mas a razão não precisa ser prerrogativa dos robôs, nem precisa ser algo a temer. Na sua descrição de cientistas como idealistas liberais, o filme apresenta uma crença completamente moderna e otimista do progresso da ciência e das glórias que estão reservadas, caso a humanidade siga o exemplo de Klaatu. A civilização alienígena que ele representa possui uma tecnologia superior, um maior acesso a recursos, e uma medicina melhor – mas não tão superior a ponto de eles serem totalmente inalcançáveis. Enquanto Klaatu exprime desagrado pelas armas nucleares que podemos levar para fora do nosso espaço, ele é rápido em salientar que a energia nuclear pode ter seus benefícios também. Apesar de Klaatu nos deixar um alerta, ele também simboliza um convite não feito para se unir com ele num futuro melhor. Seu primeiro ato, apesar de ter sido contrariado pelo soldado com a arma, era para nos presentear com uma amostra da sua tecnologia.

O Klaatu do novo filme dessa vez é um pouco mais amigável. Suas atitudes provocam interesse, tanto para um dramaturgo quanto para alguém que procura por um significado teológico nas suas entrelinhas. Dessa vez, Klaatu – Keanu Reeves, que viveu o fundador do budismo em O Pequeno Buda (1993) e o messias-zen Neo na trilogia Matrix (1999-2003), vem à terra não para trazer um alerta, mas para trazer julgamento contra a raça humana e nossos pecados ecológicos. Agora, os alienígenas não se sentem como se estivessem compartilhando sua avançada tecnologia conosco.

Curiosamente, os alienígenas do novo filme são mais parecidos com deuses e, ao mesmo tempo, mais falíveis do que na versão original. Mais semelhante a um deus porque ele parece transcender as categorias da terra, tanto as biológicas quanto tecnológicas. Klaatu é um alienígena vivendo em um corpo humano formado pelo DNA de uma pessoa morta há muito tempo, e ele pode controlar qualquer máquina apenas tocando nela. Além disso, sua chegada à Terra, após sair de uma esfera chamejante que havia estacionado no Central Park, é tratada com o mesmo tipo de terror que geralmente são apresentados nos filmes de Spielberg. Com isso, as razões dadas pelos alienígenas para intervir nos nossos assuntos, e a forma como eles intervem, são questionadas. Os alienígenas não parecem ter nenhum plano de usar a Terra, nem nós parecemos ser uma ameaça para eles, por isso a interferência deles em nossos assuntos parece algo arrogante – uma alusão à Guerra do Iraque e aos poderes exercidos pelos governantes sobre os cidadãos em nome da “segurança nacional”. Do mesmo modo, a pressa com que Klaatu lança sua sentença sobre nós parece injustificável, principalmente quando ele muda bruscamente seu pensamento e decide nos poupar ao invés de nos aniquilar, aprendendo que os humanos podem perdoar uns aos outros – algo que você poderia achar que eles já sabiam depois de tanto tempo estudando nosso planeta.

Todo o trajeto do filme é acompanhado por imagens bíblicas ou religiosas, apesar do final não ser muito claro. Klaatu não nos deixa um Consolador. Ao contrário, ele leva a humanidade de volta à Idade das Trevas, e nos leva a sustentar a nós mesmos sem nenhum método moderno de produção, transporte, negócio ou comunicação, dos quais nos acostumamos a depender. É difícil dizer se isso é um livramento ou uma forma de punição, mas mostra que o Messias alienígena com certeza não é aquele que costumava ser.

Copyright © 2009 por Christianity Today International

(Traduzido por Yuri Nikolai)

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