Boa Vista - RR, Terça, 06 de Janeiro de 2009
Iara Bednarczuk » Apresentadora de TV e Publicitária
22/06/2008 - 16:43:43h
Marcone Lázaro
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O entrevistado do J7 dessa semana é um dos jornalistas mais polêmicos do Estado, Jessé Souza, Editor-chefe da folha de Boa Vista (o jornal de maior circulação do estado). Jessé tem a responsabilidade de manter a linha editorial do principal jornal impresso de Roraima, e ao mesmo tempo, dar suas opiniões sempre apimentadas sobre diversos assuntos nos seus artigos diários, temas que geralmente agradam a maioria e desagradam uma minoria.
01- Jota7: Como foi sua trajetória no jornalismo roraimense até chegar a editor-chefe da Folha?
Jessé Souza: Todo caminho para se chegar a um objetivo é tortuoso. Eu comecei a trabalhar na área antes da criação e do reconhecimento do curso de Jornalismo na Universidade Federal de Roraima (UFRR), em 1991. De lá para os dias atuais passei em assessorias e alguns veículos impressos, além de curtas passagens em rádio e TV, locais que não me sinto bem atuando por dois óbvios motivos: minha voz não ajuda e minha imagem idem. Sou feio demais para o vídeo.
Mas meu sonho sempre foi o impresso, onde batalhei como pude para alcançar um lugar ao sol. Na Folha de Boa Vista comecei a escrever artigos em 1993, como colaborador, entregando laudas datilografadas na recepção do jornal. Só comecei a trabalhar em 1996, mas por opção minha assinei a carteira em 1997 ainda como repórter. Eu achava que a qualquer momento eu poderia cair fora, como fiz por duas vezes e voltei.
Mas a necessidade de um emprego e o objetivo de seguir essa carreira falaram mais alto e fiquei definitivamente na Folha. Antes do primeiro ano como repórter, por meio de um trabalho investigativo, em parceria com o então repórter-fotográfico Nonato Sousa descobri o escândalo das mortes dos bebês na maternidade. E a matéria de repercussão nacional me proporcionou a ascensão profissional. E o cargo de editor-chefe há uns cinco anos foi conseqüência de muito trabalho.
Durante todo esse tempo, nunca parei de escrever artigos, que na verdade é uma colaboração não remunerada desde 1993. Muitas pessoas acham que meus artigos são o editorial da Folha. Não são. Os artigos representam minha opinião pessoal, que muitas vezes conflitam ou corroboram aposição do jornal.
É difícil compreender isto para um leigo ou leitor comum: como pode um editor-chefe escrever um artigo que não representa aposição do jornal? Só agradeço os donos da Folha por me confiarem esse privilégio profissional, que procuro resguardar e respeitar da melhor forma possível.
Nunca fui cerceado, embora tenha sido repreendido por algumas posições digamos audaciosas ou até mesmo inconseqüentes. Todo mundo erra e quem trabalha na imprensa um dia fatalmente vai errar.
Mas as repreensões, as críticas e incompreensões são o preço que temos de pagar, se quisermos trilhar este caminho. Mas a sociedade de uma forma geral precisa compreender que as pessoas têm direito à opinião pessoal, que têm vida própria além da empresa ou do órgão onde elas trabalham.
A sociedade insiste em rotular as pessoas, que perdem sua identidade própria e passam ser “a” Folha, “a” TV Roraima, e não “o”Jessé, “o” o fulano de tal, que é pessoa física, cidadã, que tem pensamento e posições próprios.
02- Jota7: Entre os nossos internautas temos muitos alunos de comunicação e pessoas curiosas sobre o dia a dia das redações... Como é o seu dia na redação, muito trabalho?
Jessé Souza: Na Folha não sou apenas editor-chefe, comandando a Redação. Escrevo artigos diários e ajudo a escrever a Parabólica, que se tratam de dois espaços completamente diferentes na linguagem, na redação e no trato com o leitor e com as fontes.
Sempre comparo que Redação de jornal e restaurante são dois locais onde nunca o trabalho termina. Uso a expressão para quem está de folga na Redação: “Soldado no quartel quer trabalho ou quer cadeia”.
A vida de uma Redação é intensa e a vida das matérias é efêmera: o prazo de validade acaba no momento em que o leitor termina de ler o jornal. E no dia seguinte tudo começa de novo, com a mesma correria, tudo para ontem, sem contar com a obrigação de buscar matérias inéditas, de prezar pelo furo jornalístico e de buscar respeitar não só as regras gramaticais e ortográficas, mas principalmente nosso código de ética e alinha editorial da empresa.
Quem entra numa Redação do jornal pela primeira vez toma um susto, pois não vai compreender no primeiro momento como um jornal feito às pressas, com ordens algumas vezes dadas aos gritos pelo calor do momento e principalmente pelas discussões barulhentas. Mas, no outro dia, vai estar tudo lá, organizado e pronto para ser lido.
Estive um mês em um intercâmbio nos Estados Unidos, em 2004, nas principais redações de jornais como The Washington Post, HeraldTribune e muitos outros, e aprendi que Redação de jornal e jornalistas são iguais em qualquer parte do mundo: muito trabalho, estresse, correria, pouco tempo e sensação de que sempre se deve fazer melhor.
Se assim não for, não é Redação de jornal. É outra coisa, menos jornal.
03- Jota7: Os seus artigos são muito lidos, e são diários, como você define o tema que vai abordar?
Jessé Souza: Nem sempre tenho um tema em mente. Às vezes os temas surgem com uma ligação, com um e-mail enviado, com uma cena presenciada no trânsito, uma notícia na TV ou no rádio. Mas também surgem as inspirações em episódios pessoais, da vida da família e de conhecidos.
Há vezes em que o tema surge na hora, com a polêmica que acaba de emergir. Como já dizem os filósofos, muitas vezes a inspiração surge com o corpo em movimento. Para quem anda de carro, o trânsito é um assunto constante e necessário.
Mas não se pode escrever sem ler. Leio muito diariamente, quase um vício. Leio tudo que me interessa e que acho interessante. A internet tornou um instrumento imprescindível para ler, pesquisar, comparar, se inspirar e até mesmo ter como exemplo de como não se escrever, pois a democracia da rede permite muito lixo também.
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04- Jota7: Nas nossas entrevistas sempre tocamos no assunto de micos... Você já se viu em muitas situações difíceis e engraçadas durantes as reportagem e entrevistas?
Jessé Souza: Inúmeras, as quais até esqueci. Mas uma que tirei como lição foi a entrevista que fiz com uma liderança empresarial por telefone, no calor do fechamento. Eu fazia as perguntas e meu entrevistado respondia deforma lacônica, gaguejando e chegou a dizer que iria recorrer ao Superior Tribunal de Justiça. Pela pressa, nem prestei atenção nisso.
Abri a matéria com a declaração forte de que ele iria recorrer ao STJ e, no dia seguinte, quando a matéria foi publicada, descobri que liguei para o número errado e falei com um estranho, que me passou um trote. O mundo quis desabar na hora, mas depois da retratação, muito envergonhado, virou piado.
05- Jota7: Como já destacamos, você é um jornalista de posicionamentos que muitas vezes vêm de encontro com muita gente. Qual a sua opinião em relação ao diploma, e essa enxurrada de pessoas sem diploma atuando na imprensa roraimense?
Jessé Souza: O diploma é essencial para um profissional que quer disputar seu lugar ao sol, apesar desse assunto ainda estar sub judice na Corte maior do país, o Supremo Tribunal Federal. Mas existem bons profissionais sem diploma que honram a profissão muito mais do que muitos que têm o canudo pendurado na parede.
Mas, em compensação, é notório que falta para a maioria dos não-diplomados um preparo não apenas do mundo acadêmico, mas da própria vida.
É preciso destacar que não se pode separar a ética pessoal, a moral e o caráter da pessoa da ética profissional. Uma pessoa sem caráter, sem vida baseada numa família estruturada, jamais alcançará uma ética profissional. Isso não se aprende na escola. Pode-se aprender a escrever bem ou mal, fora e dentro da escola, mas a ética é uma construção que começa no berço.
A formação também pode existir fora da escola para uma autodidata, apesar de ser complicado, difícil e uma barreira complicada de ser vencida. É preciso muito empenho, consciência e mente focada nos objetivos.E principalmente não se deixar abater pelas críticas.
Sou uma pessoa obrigada a ler, pesquisar e estudar diariamente, seja pela internet ou na minha biblioteca particular. Porque não posso me dar ao luxo de falhar mais que os outros profissionais, porque tenho uma enxurrada de críticos que não largam do meu calcanhar, que estão prontos para pôr o dedo em riste contra minha fronte e contra meu fígado.
Não se tratam de críticos que querem me ajudar a melhorar, mas desejam me pisotear, me desmoralizar, porque tenho um posicionamento crítico, que foge ao lugar comum do que nossa sociedade está acostumada a aceitar. E as pessoas acham que ser crítico é uma afronta, pensam que a crítica é com elas. Outros incorporam a defesa de seus patrões políticos e passam a me odiar. Eu não ligo. Passei a compreendê-las, embora não aceite esse comportamento.
Eu não acho isso extraordinário nem me ponho acima do bem ou do mal. Nem essa postura enche meu ego. Eu só luto para que meus filhos e os filhos de quem acredita tenham um Estado melhor, que o futuro deles não seja roubado pela corrupção, pela hipocrisia, pela pedofilia (para citar um termo em alta no momento) e pelos desgovernos que estamos acostumados a presenciar, muitas vezes impotentes.
Os governos e governantes locais não querem críticos. Eles querem pessoas que aceitem suas fórmulas prontas, que engulam suas imposições, que não questionem nem os contrariem. Eu faço o oposto disto em meus artigos não para ser diferente, para ser polêmico. Mas por acreditar que a realidade pode mudar se cada um fizer sua parte na profissão que exerce, seja um gari ou um parlamentar.
Há pessoas que me afrontam por aí. Na sexta-feira passada eu estava numa choperia e um advogado, bêbado, queria que eu sentasse a sua mesa para ouvir um “sermão”. Quando vi que a diplomacia não iria resolver, eu me retirei injuriado e o infeliz, não satisfeito, fez um bilhete de afronta e enviou pelo garçom.
Eu tenho buscado me controlar, porque não sou pessoa de levar desaforo para casa. Cansei de dar a outra face para bater.
06- Jota7: Qual a reportagem que você gostaria de fazer um dia, e qual a que você nunca gostaria de fazer?
Jessé Souza: A manchete que gostaria de anunciar é: “Fim da corrupção: Roraima é exemplo para o Brasil”. Porque creio incondicionalmente que dá para o nosso Estado ser exemplo, sem gente pedindo, sem gente na fila do vale, sem casas de madeira, sem favelas, com pobres sendo devidamente assistidos sem esmo do assistencialismo.
E a que nunca gostaria de fazer: “Fim do túnel: Roraima descobre que não há luz nenhuma”.
07- Jota7: Fora da redação, longe do computador, como é a vida do cidadão e pai de família Jessé Souza?
Jessé Souza: Hoje eu desligo meu celular quando estou de folga. E também não tenho internet em casa, mas decidi rever esta posição. Algumas vezes também desligo o celular meio-dia quando me sinto muito cansado. Não vivo mais a fobia de achar que alguém vai me ligar, de que vou levar um furo, que vou morrer porque não soube da informação na hora certa. Não vou pirar por isso.Foto: Arquivo Pessoal
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Longe da Redação sou um cara que não falo de jornalismo, não discuto nada com relação ao trabalho e corto qualquer assunto que leve a isto – se possível até de forma ríspida com que não compreende, como o advogado bêbado na choperia.
Em casa, procuro ser um pai responsável, embora esteja longe de ser o ideal. Oro todos os dias, a qualquer momento, principalmente no meio do turbilhão. Dorme-se sem rezar, às vezes sonho rezando. Rezo não para pedir, mas para agradecer. Eu tenho tudo o que pedi: emprego, família, saúde e coragem. O que eu quero mais? Acertar na Mega-Sena acumulada?
Já fui muito envolvido com a igreja, ou seja, já fui igrejeiro. Mas optei por outro campo de atuação, onde também a messe precisa de operário. Detesto quando alguém vem me impor alguma religião, mesmo que seja a minha, a Católica. Mas sou capaz de participar numa boa de um terreiro de umbanda, por exemplo, sem qualquer problema ou preconceito. Só não faço pacto com o demônio.
Enfim, não sou de muitos sorrisos, mas isto não quer dizer que ando triste e amargurado. Sou feliz com a vida profissional que construí e com meus projetos de vida que, mesmo com percalços, estão sendo realizados. Eu sou uma pessoa normal e não mordo, como muitos pensam pelo forte semblante fechado, de pouco papo.
Comentários
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04/07/2008 - 13:48:12h por carlos silva
queria saber se esse site só publica elogios,,pos semana passada mandei um e-mail,,falando sobre a posição do jornalista jesse na questão de nepotismo e vcs não publicarão,,,volto a falar ele não tem moral para criticar o nepotismo pos seu chefe maior getulio cruz ,empregou seu filho getulinh
01/07/2008 - 22:17:13h por miro lopes
a equipe do jota7 ta de parabéns pela entrevista, so quero dizer que vc jessé é um grande icone do jornalismo macuxi, e também um otimo amigo...parabéns jota7
27/06/2008 - 07:42:51h por Ademir Ferreira De Lima
Amigo Jessé,leio seus artigos desde do antigo Diário de Roraima,e cada dia fico mais orgulhoso de saber que em nosso estado temos pessoas como vc,competente,corajoso,e muito resposavél.parabéns.
23/06/2008 - 12:44:32h por ROSEMEIRE MORAES COSTA
Sou estudante de jornalismo do terceiro semestre, gostei muito da sua entrevista que lí no jota7. Embora não conhecesse sua biografia sempre adimirei pessoas que expõe suas opiniões verdadeiras e acho que posso ter você como exemplo profissional. Fica aquí meus cumprimentos e Boa sorte!
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